domingo, 30 de junho de 2013

Os exames, um modelo didático pouco valioso


Por José Paz Rodrigues (*)
Como todos os anos por estas datas estamos já imersos no terror dos exames do nosso ensino, universitário, secundário e primário. Um sistema de avaliação racional tem como missão servir aos estudantes, mais que os docentes. A avaliação não pode ser uma barreira para ver quem é capaz de superá-la, senão um modo de fazer consciente o avanço, para saber quando se chegou a um nível e sentir assim a segurança e a satisfação de continuar para a frente. Por isso a autoavaliação é absolutamente necessária, nos níveis onde se possa usar. É indispensável que o estudante seja sempre objetivamente consciente de seu progresso. Quando o objetivo real é ensinar, a ideia do exame é tão absurda, que inclusive parece mentira que se lhe ocorresse a alguém. O exame é o produto de considerar a escola primária e secundária e a universidade, como expedidoras de títulos. Ao que Tagore chamava “etiquetas” para os vultos. Em que os vultos eram os estudantes e as etiquetas os diplomas e títulos.
Robindronath TagoreInfelizmente, cada dia ganham mais importância os exames no nosso sistema educativo. E a nova lei educativa da qual se vem falando ultimamente quer recuperar as nefastas “reválidas” (exames nacionais), e eu não sei quem é o “ilustre pensador” (ou “pensadores”) de tal atentado pedagógico. E na universidade o tema termina por ser doentio. A maioria dos universitários estudam para o bom sucesso nos exames. Não para aprenderem e depois serem bons profissionais nos diferentes contextos do seu trabalho. Sabendo resolver acertadamente os dilemas do dia-a-dia, de forma criativa e positiva. Quase me atrevo a dizer que a universidade está montada essencialmente nos exames. Que na maioria dos casos servem de chantagem aos discentes por parte dos docentes. Quando falo de exames estou-me referindo aos de tipo memorístico e repetitivo, que consideram os alunos como magnetofones ou papagaios. Não estou a referir-me a outras provas de aplicação prática, criativas, que seguem o modelo da aprendizagem significativa.
Parece ser que os inventores dos exames foram os chineses, para comprovar o grau de memória dos aspirantes a mandarins, que tinham que conhecer muitos gráficos do seu idioma. No chinês cada símbolo é uma palavra e para lembrá-las há que ter uma boa memória visual. Ninguém discute que o exame é um sistema para avaliar os estudantes. Mas é o pior de todos, e do ponto de vista didático é o mais antipedagógico.
Quando falo de exames, vem-me à memória o movimento pedagógico mais importante que houve na Europa, a ILE (Instituição Livre do Ensino), criada por Giner e os seus colaboradores em 1876. Funcionou até 1936 e, ademais de não permitir o uso de livros de texto, no segundo artigo dos seus estatutos figurava que os exames eram proibidos. Sem exames, e graças à ILE de Giner e de Cossio, tivemos no país personalidades tão destacadas como os prémios Nobel de Literatura Echegaray, Jacinto Benavente, Juan Ramón Jiménez e Vicente Aleixandre, e os de Medicina Severo Ochoa e Ramón e Cajal. Os literatos da geração do 27 como Lorca, Alberti, Machado e Cernuda. O grande cineasta Buñuel, o pintor Dalí, o pedagogo Luzuriaga e os filósofos Conceição Arenal, Garcia Morente, Biqueira e Ortega e Gasset.
Francisco Giner de los RiosGiner de los Rios, grande pedagogo, tinha um grande ódio aos exames, que considerava funestos para um bom ensino, para educar e para conseguir pessoas com ética e íntegras. Por isso, entre outras das suas opiniões, chegou a dizer que os exames eram uma prática malfadada. São muito interessantes os seus artigos “Ou educação ou exames” publicado no tomo 10 das suas Obras completas. Também “Mais contra os exames”, que viu a luz em 1882 na revista BILE. Revelador é quando assinala: “A supressão do exame representa a mais profunda mudança de orientação no ensino e na escola”. Quanta razão tinha Giner! Os docentes de todos os níveis deveriam dar-se conta de que existem outros muitos e melhores modelos para avaliar os seus alunos e alunas. Incluída a observação direta, espontânea ou estruturada.
Na ILE os exames eram proibidos
O meu grande amigo Fernando González, excelente professor que foi no antigo Instituto de Ourense, escrevia há um certo tempo sobre os exames. Nalguns treitos do seu artigo discrepava das minhas opiniões manifestadas sobre este tema em muitos dos meus escritos pedagógicos. Acho que não entendeu em toda a sua amplitude o manifestado por mim. Que ademais eu seguia o que pensavam os maiores pedagogos que tivemos no país: Francisco Giner de los Ríos e Manuel Bartolomé Cossío. Que não só o pensavam, como o levavam à prática com grande sucesso. Na sua Instituição Livre do Ensino (ILE), desde 1876 a 1936. Em que estudaram todos os nossos Prémios Nobel, tanto de Literatura como de Ciências e Medicina. Tal como anteriormente comentei.
Celestin FreinetEu não sou contra os exames, se estes são racionais, se fazem refletir o aluno/a, se são para aplicar a teoria à prática e à realidade (que isso é o que se denomina aprendizagem significativa), se servem para que os estudantes possam autoavaliar-se e conhecer os seus progressos na aprendizagem. Este tipo de exames existiam na ILE, e muitos exercícios práticos, resolução de problemas matemáticos e de geologia, física e química, baseados na realidade e no meio circundante, não abstratos mas concretos. O meu admirado Tagore não gostava nada dos exames. Só os fazia nas suas escolas e faculdades de Santiniketon porque o obrigavam os britânicos, por meio da Universidade de Calcutá, encarregada da supervisão dos mesmos. Mas Robindronath deixava totalmente livres os seus alunos para preencherem as diferentes provas, sem controlo e vigilância policial. Mesmo muitos estudantes as realizavam subidos a uma árvore ou sentados no campo e ao ar livre. Tagore dizia acertadamente que os mestres devem confiar nos alunos e que essa é a melhor maneira de gerar neles atitudes éticas. Exercícios todos os dias também se faziam nas aulas do grande pedagogo francês Celestin Freinet. Quem tampouco fazia exames memorísticos tradicionais, mas sim a diário os seus alunos redigiam textos livres criativos e desenhos livres, ademais de cálculo vivo. Porque a física e a química está no meio circundante e na vida. Quanta química se faz nas nossas cozinhas às horas das refeições! O nosso Otero Pedraio, um excelente educador, comentava com acerto que o melhor livro era o meio, a vida e a natureza. E que a história, a geografia, a literatura e as ciências, toda a nossa cultura galega, eram o melhor currículo para a escola.
Estou seguro que os exames do meu amigo Fernando eram deste tipo que comento. Não aqueles que querem que o aluno seja um papagaio, uma pega ou um magnetofone. No seu artigo precisamente dá-me a chave de tudo. Como Giner e Cossío não faziam exames deste tipo, no seu dia eram criticados. E diziam-lhes que quando os alunos da ILE tivessem que fazer os exames de ingresso na universidade fracassariam. Mas acontecia todo o contrário. As melhores classificações eram para os estudantes que procediam da ILE. Os Ochoa, Benavente, Ramón e Cajal, Jiménez, Aleixandre...
Manuel Bartolomé CossioPorque no ensino, que em vez de melhorar cada dia vai a pior, por causas muitas das vezes alheias aos docentes, é muito importante ter claras as cousas. Em primeiro lugar, um bom professor é aquele que ama o que ensina, que desfruta dando o seu saber aos estudantes. Em segundo lugar, é básico que o aluno tenha “sede” por aprender. E, senão a tiver, é preciso criar-lha, utilizando todas as estratégias possíveis para fomentar a curiosidade. Perde-se o tempo ensinando, se previamente não tivermos criado isto nos nossos alunos. Depois não se pode abusar dos exames, e há que utilizar sistemas variados para avaliar. Que os há e muitos. O grande problema que temos é que os exames, que são um meio didático, terminam por ser um fim. Como acontece ultimamente nas nossas universidades, que em grande parte deixaram de ser “universitas”, como eram quando foram criadas. Agora suspendem-se um tempo as aulas para que os alunos preparem os exames (muitos sobre apontamentos que vendem nas fotocopiadoras). E estes estão programados de forma rígida em dia, hora e aula, chova, neve ou trone. Antes programavam-se de comum acordo entre os estudantes e os professores. Sacralizaram-se os exames, sem pensar que os estudantes devem estudar, não para o exame, mas para ter um alto nível cultural e ser depois bons profissionais nos seus variados trabalhos. Sabendo resolver os seus dilemas quotidianos, ali onde quer que estejam a desenvolver o seu ofício. Mas, sobre a universidade terei que escrever outro artigo proximamente. Que, pola sua importância social, bem o merece.

(*) Académico da AGLP, Didata e Pedagogo Tagoreano.
http://pglingua.org/opiniom/index.php?option=com_content&view=article&catid=3&id=5639&Itemid=81