
Infelizmente,
cada dia ganham mais importância os exames no nosso sistema educativo. E
a nova lei educativa da qual se vem falando ultimamente quer recuperar
as nefastas
“reválidas” (exames nacionais), e eu não sei quem é
o “ilustre pensador” (ou “pensadores”) de tal atentado pedagógico. E na
universidade o tema termina por ser doentio. A maioria dos
universitários estudam para o bom sucesso nos exames. Não para
aprenderem e depois serem bons profissionais nos diferentes contextos do
seu trabalho. Sabendo resolver acertadamente os dilemas do dia-a-dia,
de forma criativa e positiva. Quase me atrevo a dizer que a universidade
está montada essencialmente nos exames. Que na maioria dos casos servem
de chantagem aos discentes por parte dos docentes. Quando falo de
exames estou-me referindo aos de tipo memorístico e repetitivo, que
consideram os alunos como magnetofones ou papagaios. Não estou a
referir-me a outras provas de aplicação prática, criativas, que seguem o
modelo da aprendizagem significativa.
Parece ser que os inventores dos exames
foram os chineses, para comprovar o grau de memória dos aspirantes a
mandarins, que tinham que conhecer muitos gráficos do seu idioma. No
chinês cada símbolo é uma palavra e para lembrá-las há que ter uma boa
memória visual. Ninguém discute que o exame é um sistema para avaliar os
estudantes. Mas é o pior de todos, e do ponto de vista didático é o
mais antipedagógico.
Quando falo de exames, vem-me à memória o
movimento pedagógico mais importante que houve na Europa, a ILE
(Instituição Livre do Ensino), criada por Giner e os seus colaboradores
em 1876. Funcionou até 1936 e, ademais de não permitir o uso de livros
de texto, no segundo artigo dos seus estatutos figurava que os exames
eram proibidos. Sem exames, e graças à ILE de Giner e de Cossio, tivemos
no país personalidades tão destacadas como os prémios Nobel de
Literatura Echegaray, Jacinto Benavente, Juan Ramón Jiménez e Vicente
Aleixandre, e os de Medicina Severo Ochoa e Ramón e Cajal. Os literatos
da geração do 27 como Lorca, Alberti, Machado e Cernuda. O grande
cineasta Buñuel, o pintor Dalí, o pedagogo Luzuriaga e os filósofos
Conceição Arenal, Garcia Morente, Biqueira e Ortega e Gasset.

Giner
de los Rios, grande pedagogo, tinha um grande ódio aos exames, que
considerava funestos para um bom ensino, para educar e para conseguir
pessoas com ética e íntegras. Por isso, entre outras das suas opiniões,
chegou a dizer que os exames eram uma prática malfadada. São muito
interessantes os seus artigos
“Ou educação ou exames” publicado no tomo 10 das suas Obras completas. Também
“Mais contra os exames”, que viu a luz em 1882 na revista BILE. Revelador é quando assinala:
“A supressão do exame representa a mais profunda mudança de orientação no ensino e na escola”.
Quanta razão tinha Giner! Os docentes de todos os níveis deveriam
dar-se conta de que existem outros muitos e melhores modelos para
avaliar os seus alunos e alunas. Incluída a observação direta,
espontânea ou estruturada.
Na ILE os exames eram proibidos
O meu grande amigo Fernando González,
excelente professor que foi no antigo Instituto de Ourense, escrevia há
um certo tempo sobre os exames. Nalguns treitos do seu artigo discrepava
das minhas opiniões manifestadas sobre este tema em muitos dos meus
escritos pedagógicos. Acho que não entendeu em toda a sua amplitude o
manifestado por mim. Que ademais eu seguia o que pensavam os maiores
pedagogos que tivemos no país: Francisco Giner de los Ríos e Manuel
Bartolomé Cossío. Que não só o pensavam, como o levavam à prática com
grande sucesso. Na sua Instituição Livre do Ensino (ILE), desde 1876 a
1936. Em que estudaram todos os nossos Prémios Nobel, tanto de
Literatura como de Ciências e Medicina. Tal como anteriormente comentei.

Eu
não sou contra os exames, se estes são racionais, se fazem refletir o
aluno/a, se são para aplicar a teoria à prática e à realidade (que isso é
o que se denomina aprendizagem significativa), se servem para que os
estudantes possam autoavaliar-se e conhecer os seus progressos na
aprendizagem. Este tipo de exames existiam na ILE, e muitos exercícios
práticos, resolução de problemas matemáticos e de geologia, física e
química, baseados na realidade e no meio circundante, não abstratos mas
concretos. O meu admirado Tagore não gostava nada dos exames. Só os
fazia nas suas escolas e faculdades de Santiniketon porque o obrigavam
os britânicos, por meio da Universidade de Calcutá, encarregada da
supervisão dos mesmos. Mas Robindronath deixava totalmente livres os
seus alunos para preencherem as diferentes provas, sem controlo e
vigilância policial. Mesmo muitos estudantes as realizavam subidos a uma
árvore ou sentados no campo e ao ar livre. Tagore dizia acertadamente
que os mestres devem confiar nos alunos e que essa é a melhor maneira de
gerar neles atitudes éticas. Exercícios todos os dias também se faziam
nas aulas do grande pedagogo francês Celestin Freinet. Quem tampouco
fazia exames memorísticos tradicionais, mas sim a diário os seus alunos
redigiam textos livres criativos e desenhos livres, ademais de cálculo
vivo. Porque a física e a química está no meio circundante e na vida.
Quanta química se faz nas nossas cozinhas às horas das refeições! O
nosso Otero Pedraio, um excelente educador, comentava com acerto que o
melhor livro era o meio, a vida e a natureza. E que a história, a
geografia, a literatura e as ciências, toda a nossa cultura galega, eram
o melhor currículo para a escola.
Estou seguro que os exames do meu amigo
Fernando eram deste tipo que comento. Não aqueles que querem que o aluno
seja um papagaio, uma pega ou um magnetofone. No seu artigo
precisamente dá-me a chave de tudo. Como Giner e Cossío não faziam
exames deste tipo, no seu dia eram criticados. E diziam-lhes que quando
os alunos da ILE tivessem que fazer os exames de ingresso na
universidade fracassariam. Mas acontecia todo o contrário. As melhores
classificações eram para os estudantes que procediam da ILE. Os Ochoa,
Benavente, Ramón e Cajal, Jiménez, Aleixandre...

Porque
no ensino, que em vez de melhorar cada dia vai a pior, por causas
muitas das vezes alheias aos docentes, é muito importante ter claras as
cousas. Em primeiro lugar, um bom professor é aquele que ama o que
ensina, que desfruta dando o seu saber aos estudantes. Em segundo lugar,
é básico que o aluno tenha “sede” por aprender. E, senão a tiver, é
preciso criar-lha, utilizando todas as estratégias possíveis para
fomentar a curiosidade. Perde-se o tempo ensinando, se previamente não
tivermos criado isto nos nossos alunos. Depois não se pode abusar dos
exames, e há que utilizar sistemas variados para avaliar. Que os há e
muitos. O grande problema que temos é que os exames, que são um meio
didático, terminam por ser um fim. Como acontece ultimamente nas nossas
universidades, que em grande parte deixaram de ser “universitas”, como
eram quando foram criadas. Agora suspendem-se um tempo as aulas para que
os alunos preparem os exames (muitos sobre apontamentos que vendem nas
fotocopiadoras). E estes estão programados de forma rígida em dia, hora e
aula, chova, neve ou trone. Antes programavam-se de comum acordo entre
os estudantes e os professores. Sacralizaram-se os exames, sem pensar
que os estudantes devem estudar, não para o exame, mas para ter um alto
nível cultural e ser depois bons profissionais nos seus variados
trabalhos. Sabendo resolver os seus dilemas quotidianos, ali onde quer
que estejam a desenvolver o seu ofício. Mas, sobre a universidade terei
que escrever outro artigo proximamente. Que, pola sua importância
social, bem o merece.
(*) Académico da AGLP, Didata e Pedagogo Tagoreano.
http://pglingua.org/opiniom/index.php?option=com_content&view=article&catid=3&id=5639&Itemid=81